domingo, 14 de setembro de 2008

Canecão - RJ, 13/09/08



Dos 9 aos 12 anos, Rafael Pelegatti Frejat viu notas e acordes tomarem conta de seus dias e noites em aulas na Guitar Club, escola especializada em guitarra, em Ipanema. Mirando-se no pai, mas talhado em audições aquarteladas de AC/DC e Ozzy Osbourne, o menino pisou o palco do Canecão, neste fim de semana, para acompanhar Frejat em duas canções. Foi a surpresa do espetáculo Intimidade entre Estranhos, mas não a única.
Ao pulsar com releituras de Adriana Calcanhotto (Vambora) e Renato Russo e Flávio Venturini (Mais uma vez), reivindicar o violão como ferramenta das inúmeras baladas e pedir a anuência da platéia para as novas canções, o líder do Barão Vermelho descolou-se definitivamente do Barão Vermelho. Pôs-se, absoluto, como o grande sobrevivente da década de 80 e a bordo do melhor show pop de 2008 até agora. Um show em família e para, acredite, a família.

– Para dizer a verdade ensaiamos pouco – revela Frejat após o show. – Minha banda (Billy Brandão, guitarra; Mauricio Barros, teclados e direção musical; Marcelinho da Costa, bateria; e Bruno Migliari, baixo) toca há muito tempo junta. Mas eu mesmo estou surpreso com a dinâmica que o show ganhou tão rapidamente.

É um espetáculo vulcânico, em que co-habitam entretenimento e clássicos românticos da seara pop. Como todo show do gênero deveria ser. Frejat está onipotente. Ordena a platéia, dirige sua obra como um proprietário orgulhoso. De canções e de idéias, de direções e transgressões. De investidas nas mais profundas miríades melódicas. Por isso seu show é o de um líder, de um ícone da música brasileira – no mais amplo sentido de sua importante existência.

Enfim, a guitarra

Diferentemente de nomes dos anos 80 que se perderam em autodestrutivas e sistemáticas mudanças, caso de Paulo Ricardo e suas idas e vindas, do romântico ao rock, o cantor e um dos compositores do Barão Vermelho tem a carreira – e o palco na mão. Com a guitarra, de formulações stonianas e santanianas, Frejat contorce o espetáculo em dois módulos. No primeiro, ao violão, arrebanha um punhado de baladas, de Amor, meu grande amor (Angela Ro Ro) a Mais uma vez, esta a única parceria de Renato Russo e Flávio Venturini. No segundo, a serviçal guitarra abraça o dono. É quando irrompe o Barão Vermelho que há dentro de Frejat, o personagem pedido no primeiro minuto do show por um maluco que bradava “Long live rock'n' roll” a cada minuto como uma testemunha ocular de Woodstock. Daí em diante, aparecem as sempre necessárias Bete Balanço, Eu preciso te tirar do sério, e Amor pra recomeçar.

Entremeando os dois pedaços, canções do terceiro disco, Intimidade entre estranhos, recém-lançado e invadido por vários parceiros distintos, de novos como Paulo Ricardo (Controle remoto) e Black Alien (Eu não quero brigar mais não) aos habituais Mauro Sta Cecília (Dois lados, com Mauricio Barros, faixa que emplacou na novela global Beleza pura; e O céu não acaba, com Ezequiel Neves).

A banda está elegante. Todo mundo de terno preto, como num conjunto de baile de debutantes. A estrutura cênica segue essa linha. Nada ali lembra o Barão Vermelho. É uma costura pop refinada. Demorou até Frejat tacar o paletó longe e arregaçar as mangas, ainda que num estilo mais low-profile. Nada no espetáculo conduz a platéia a um show de rock.

É em Tudo de bom, parceria com Bruno Levinson (que no show também lhe entrega Homem não chora), que entra em cena Rafael Pelegatti Frejat, o filho do síndico da festa. Com uma guitarra Gibson SG que quase lhe cobre o corpo, o moleque rasga em solos e riffs pesados, transformando-se na estrelinha da noite. Lado a lado, pai e filho parecem que ligam o amplificador no quarto do garoto todo fim de noite antes de se despedirem. Mas não, não é bem assim.

- Ele queria que eu o ensinasse a tocar guitarra, mas eu disse que não era professor. Eu não tinha método, né? Daí ele foi estudar numa escola – lembra Frejat. – De vez em quando a gente vê um DVD junto, ouve música no carro e tal. Mas quase não nos encontramos para tocar. A participação dele foi só no Rio mesmo.

Frejat dá o primeiro tchau com Malandragem (com Cazuza, gravada por Cássia Eller pela primeira vez em O marginal) e Amor pra recomeçar (com Mauro Sta Cecília. No bis, pedido em gritaria pela platéia, Por que a gente é assim (Cazuza, Frejat e Ezequiel Neves).

– É o melhor show da carreira solo dele – atesta o letrista, poeta e escritor Mauro Sta Cecília, parceiro desde 1998 e que já emplacou 10 canções nessa fase, três delas no último disco. – Sou suspeito para falar do Frejat. Está tudo muito redondo e ele privilegiou as músicas mais aceleradas. As pessoas hoje estão mais preguiçosas. Querem sair de casa para ouvir só os sucessos. E acho que o Frejat conseguiu combinar essas duas coisas muito bem: as novas e os clássicos.

Reverbera-se no Canecão uma sensação de show clássico. Aquele em que você não vai, mas fica sabendo por alguém com um desagradável:
“você não sabe o que perdeu”.

Na porta do camarim, uma imensa fila em busca de uma foto, uma frase ou um singelo olhar distante do cantor.


Frejat vai a São Paulo e ao Sul do Brasil este mês.
No Rio, só se poderá vê-lo dia 22 de outubro, no Circo Voador, em aparição dividida com a cantora Roberta Sá, o grande nome da ala feminina neste ano.

– Eu e ela não conversamos sobre o show, não sabemos ainda como vamos nos misturar – admite Frejat. – Mas acho que vai dar certo.

Sempre dá certo para Frejat.

Fonte: http://jbonline.terra.com.br/extra/2008/09/14/e140913208.html

Um comentário:

  1. O show era pra ser do Frejat. Mas acabou sendo dos Frejats - assim mesmo, no plural. Quem foi ao Canecão sexta-feira, na estréia do show "Intimidade entre estranhos", viu três Frejats, na melhor apresentação solo do cantor nos últimos anos.
    O primeiro Frejat é comportado, mas nem por isso insosso. O novo CD, que em casa é bacana mas meio irregular, no palco cresce. Frejat escolhe três músicas do disco para abrir a noite, uma ousadia e tanto. Mas escolhe justamente as melhores: "Controle remoto" (que está nas rádios), "Dois lados" e "Eu não quero brigar mais não". Aos poucos, vai misturando sucessos como "Amor meu grande amor" e "Homem não chora", mas sempre contido, quase intimista.
    Em "Eu preciso te tirar do sério", porém dá para desconfiar que baixou um santo no palco. Muda tudo. o cantor incorpora o segundo Frejat e o show ganha um ritmo frenético. No melhor estilo roqueiro, revira o baú e manda ver a saudosa "Bete Balanço". Todo mundo levanta, dança. Frejat se solta e emenda "Malandragem", "Amor pra recomeçar"...
    E o terceiro Frejat, onde entra nessa história? Entra no finzinho do show. Quando a gente menos espera, surge Rafael Frejat, de 12 anos. Filho do cantor, o garoto arrebenta na guitarra em "Tudo de bom" e "Por que a gente é assim?". Frejatzinho no tamanho, sim, mas com talento de Frejatzão.


    Fonte: http://www.jornalextraonline.com.br

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